Pequenos tsunamis

A seguir com o filme ‘O impossível’ sobre o tsunami na Tailândia, e escrevendo em galego à moda portuguesa, volto ao comentário acerca do facto de ter sido uma família espanhola convertida em americana para efeitos cinematográficos. Mesmo a revista TIME brinca com o que cheira a preconceito e pergunta-se porque não se fez o filme com o casal Penélope Cruz-Javier Bardem a protagonizá-lo. É que “os latinos” não valem para emocionarem audiências mundiais?
Ora, ainda gostaria chamar a atenção do paciente leitor sobre outro facto que vai além da atrocidade pontual do tsunami: o constante aumento do nível das águas dos mares. Olhamos sem preocupação para os restos de cidades mergulhadas que os arqueólogos submarinos andam a levantar (veja-se o caso notório de Alexandria); mas isso, a verificação do derretemento dos gelos polares e desastres como o do Katrina e do Sandy deveriam-nos fazer pensar muito:
Quanto custa manter grandes populações obstinadamente à beira do mar? Quanto custou recompor (mesmo parcialmente) Nova Orleães? A recomposição de Nova Iorque já vai pelos 70.000 milhões de dólares.
E, bom, não faz falta irmos tão longe. Cá na nossa Galiza já sabemos o que acontece quando as marés e as enchentes dos rios coincidem. O caso de Betanços é paradigmático. Os geólogos brincam com as alturas que têm as dunas fósseis ao longo de toda a costa da Gallaecia: segundo o nível do mar desceu com o passo dos séculos, agora pode elevar-se (e de facto, está a fazé-lo).
Isso obriga a perguntar se as nossas administrações têm remédios pensados para o que parece inevitável: que as inundações cada ano mais frequentes nas vilas e as cidades costeiras arruinem as suas economias.
E mais uma pergunta, meus senhores: a solução está em se fazerem obras de engenharia como as que já protegem as cidades holandesas e Londres (e as que vão proteger Veneza)… ou, simplesmente, desfazer as asneiras que nos últimos tempos se fizeram nom afã louco por ganhar espaços ao mar –um mar que se vai vingar com fúrias de pequenos mas persistentes tsunamis?

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