Escrever en minoritário / minorizado

De novo escrevo em galego com formato português como homenagem a Lapa, Guerra da Cal e Carvalho Calero.
O assunto é a língua em que escrevermos, se galego ou castelhano, uma serpe de verão que nos ataca de quando em quando.
Este verão do 2012 um juri formado por cinco pessoas capazes de ler todas as línguas románicas (menos o romeno), junto com o inglês e o alemão, leu 41 novelas (romances curtos) para um substancioso prémio (90 euros / página) de obra em galego.
O “faro” -como dizem os portugueses- dos membros do juri fez que logo eles detectassem qual era a língua original verdadeira das obras. Practicamente a metade foram escritas em castelhano e convertidas ao galego: “l’argent n’a pas de odeur”, como dizem os franceses. Certo, e o procedimento é válido, mas merece comentário… porque vai haver comentários dos que se sintan vítimas de possível discriminação.
Visto o vulto do prémio, haverá quem diga que na Galiza sempre deve ficar aberta a escolha do idioma porque, coitadinhos, há muitos escritores que vivem em castelhano. Mesmo haverá quem, no seu vitimismo, pense que o juri ao que me refiro, logo de cheirar a origem das novelas, discriminou.
Mas não foi assim. Dos 41 originais passaram a debate 15, o qual dá ideia do nível de qualidade que lá houve; desses, o funil foi deixando passar ainda 5; e esses finalistas foram motivo da discutirmos muito até chegarmos ao consenso. Ganhou uma obra de galego perfeito, original; mas pouco faltou para que ganhasse outra talvez escrita em castelhano da Galiza, muito marcado pela fala que não importa esquecer.
O juri analisou -e bateu-se duramente- a qualidade, consciente de que a Literatura está por cima das línguas e que, em qualquer caso, sempre se pode arranjar um texto, ajeitá-lo à língua de publicação.
Realmente, neste Impaís Levitante que já via Gonçalo Torrente Ballester (home talentoso e de pouca vista, muito míope) há um grande problema de fundo; e é a castelhanização e a negação da Literatura escrita em português. Não há problema de falta de histórias nem de capacidade para escrever.
Se a gente se forma na leitura de obras só em castelhano, sem quase nada de galego (o das aulas) e nada de português… ¿Que podemos esperar?
E além disso há a miséria moral dos grandes escritores nados na Galiza. O génio Valle-Inclán dizia que escrevia em castelhano porque preferia ser entendido por vinte nações a sé-lo só por quatro províncias. Pela sua cabeça gloriosa nunca passaria tentar ser lido numa língua que um século despois da sua arroutada despreciativa todo o mundo quer aprender ainda que só seja para trabalhar com Brasil e Angola.
Ora, isso sim, como dizia Gerra da Cal, o manco genial foi-o tanto que inventou um tampitám capaz de fazer aos castelhanos pensar que estavam a ler em galego…
Passando a uma geração posterior, temos Cunqueiro e Torrente. Eu tratei muito a Ramóm Pinheiro, algo a dom Álvaro e dabondo a dom Gonçalo.
Pinheiro contou-me que, quando Cunqueiro se apresentou com ‘Merlím e Família” houve muita gente a dizer-lhe que traduzisse porque tal acerto não devia publicar-se em galego; merecia uma língua “de verdade”. Mas o autor sentira a fábula num idioma e não consentiu no que, no fundo da sua consciência, era uma traição.
Passadas as décadas, essa fábula é fartamente conhecida no mundo, posta como exemplo do que Guerra da Cal (que não podia aceitar a existência do “fascista de Mondonhedo”) chamava o “prato favorito de esse homem bufo, cozinheiro”. ¿Quem saltou à palestra com o realismo mágico no século XX, os sudamericanos em “espanhol” ou Cunqueiro em galego?
Quanto a Torrente, já o tenho repetido: Pinheiro me disse que “La Saga / Fuga” fora iniciada em galego…, e quando eu lhe perguntava a dom Gonçalo porque, falando ele tão bom galego, só escrevia em castelhano, respondia-me que porque, de escrever em galego, teria que fazé-lo em ferrolão…
Bem, eu sempre pensei que um autor se deve à língua do povo do que toma matéria literária. Ora, não por isso vou deixar de admirar e reler “Los Pazos de Ulloa” ou “Los Gozos y las Sombras”.
O que não vale, estimados colegas na vaidade literária, é andarmos com o conto da discriminação. Se formos plenamente consequentes com a galeguidade, deveriamos escrever maravilhas de obras em galego. Se tão boas forem, não tenhades cuidado de que depois fossem traduzidas. A questão não é escrevermos em língua minoritária mas em língua minorizada, e por nós mesmos, porque a consideremos imprópria para suportar a nossa arte.
Aforro o comentário de que, escrevendo o galego em formato português há um grande mundo à nossa espera. O dialecto estremenho do galego, que irradiou pelo mundo desde a Lisboa imperial, contém, no fundo toda a língua matriz do norte.

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