Sobre a língua, a Literatura

Passam os anos e a gente farta-se de aturar imbecilidades.
Hoje vou contar o caso duma sujeita que se sabe escritora em castelhano com grande sucesso mas que provavelmente não vá ficar nos livros de história de Literatura.
Ela leva um apelido suspeitamente italiano e nasceu numa cidade galega de muito aluvião, por industrial e marítima. Foi levada para Madrid e ali formada em Humanidades. No seu currículo consta ser lexicógrafa.
O feito é que alguém lhe passou um papelote muito bem intencionado mas horrível, ampuloso. Supostamente relatório sobre assuntos que mereceriam prosa de consultor, singela e ajeitada, livre de barroquismos, era um desastre de discurso cheio de vírgulas mal colocadas.
Esse documento merecera dura crítica quanto ao formal por um escritor com mais de quarenta títulos no ISBN e milheiros de artigos publicados em jornais e revistas.
A funcionária da que se fala, ao saber que quem fazia a crítica escrevia em galego como língua de implantação, quis desfazer a crítica desvalorizando o autor com um argumento rotundo: quem pode ter autoridade se escreve numa língua “menor”? Além disso, por se fosse pouco, atreveu-se a senhora dama a perguntar-se quanta obre teria publicado o conhecido escritor –crítico neste caso– de ter escrito em castelhano.
Ou seja, segundo o argumento desta famosa literata, quem escrevem em galego (como em catalão ou basco) fazem-no para encontrarem refúgio à sua pobre escritura. Não cabe na cabeça dela a idéia de haver escritores fieis à língua do povo do que tiram substância literária, nem acostumados a usar essa língua para fazerem discurso.
Quer isto dizer que pessoal como o que representa a tal lexicógrafa castelhanista entende que a língua condiciona a capacidade de fazer Literatura…
Para quem, como quem isto escreve, o mundo é multiglóssico (e hipoteticamente multilíngüe), a realidade é outra. Os que assim somos percebemos a Literatura como filha de escritores, não de gentinha apenas capaz de redigir documentos. Na gloriosa Babel em que passamos tempos de pensamento e escritura, Bruxelas, ouvimos dúzias de “idiomas menores” que nos induzem a procurarmos sabores novos, porque em todos eles se imaginam e suspeitam obras nobres.
Quiçá a quem só vê a vida desde “un triste pueblón castellano con un museo importante” lhe convier matar preconceitos simplesmente viajando ao país da sua origem imediata: a Literatura sempre esteve e há de estar por cima dos idiomas.

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