Os fantasmas do Rovuma

Sigo e escrever em galego com formato português em honra e memória dos meus mestres visionários, que tal exercício recomendavam quando só era sonho uma Europa Unida e umas grandes economias na África e na América a se exprimirem na língua que nasceu na Galícia (ou melhor, na Gallaecia).
Durante duas semanas administrei o tempo com um livro surpreendente, titulado ‘Os fantasmas do Rovuma’ e subtitulado ‘A epopéia dos soldados portugueses em África na I Guerra Mundial’.
Sabemos pouquíssimo, ou nada, sobre o que passou “ao Sul do mundo” em quanto a Europa se matava sistematicamente na Grande Guerra. Mais lá sucedeu uma epopéia que faz lembrar a dos soldados espanhóis vinte anos antes em Cuba.
Quem queira conhecer horrores bélicos, leia a obra citada, escrita por Ricardo Marques: os portugueses teimam em passar o rio Rovuma para tirarem território aos alemães. O empenho dos expedicionários lusos é superarem a fronteira septentrional de Moçambique para entrarem na África Oriental Alemã.
E aí vão ser vítimas da selva tropical, como o foram os espanhóis em Cuba. A Morte é muitas mortes em forma de bactéria, inseto e mesmo leão faminto. Também há balas e obuses dos “boches”, mas esses instrumentos de chumbo e pólvora fazem um mal menor. O horror é a doença, a sede, a lama, o sol abrasador, a chuva sem fim.
Surpreende a mestria literária dos oficiais portugueses que descrevem uma guerra na que o inimigo humano é difícil de ver: ou o Portugal dos inícios republicanos era mui culto ou as suas academias militares eram Faculdades de Letras com uniforme castrense. Paga a pena ler ‘Os fantasmas do Rovuma’ pelos documentos que o Ricardo Marques cópia (cadernos e folhas de informes).
Outro fato rechamante é a consideração que os europeus –teutões ou ibéricos– davam aos indígenas. A fome apertava a todos, soldados brancos e carregadores pretos que se internaram no mato. Todos então matavam veados e porcos bravos, sustento dos leões. Conseguiram que os grandes felinos passassem fome e que se virassem contra os humanos.
Como as leoas famintas com crias atacavam os acampamentos às noites, houve oficial português que sugerisse a conveniência de escolher negros incapacitados pela fome e as enfermidades para levarem vultos ao lombo, e atá-los a árvores próximas para serem devorados e assim salvar o resto da tropa…
Que o mundo é uma loucura, e que muita guerra se perdeu (ou não se deu ganhado) por vontade da Mãe Terra, vem-se demonstrar mais uma vez neste livro recomendável.
Para galegos que não queiram baixar a comprá-lo em Portugal, podem-no pedir a Biblos, o clube de leitores que nos abre as portas a quanto se publicar além do Minho.

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